Escuta ativa em saúde mental: como acolher alguém sem julgar, minimizar ou tentar resolver tudo
- Karina Stryjer

- há 2 dias
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Acolher uma pessoa em sofrimento não exige respostas perfeitas. Exige presença, escuta, limites claros e capacidade de aproximá-la do cuidado adequado quando necessário.
Quando uma pessoa compartilha sofrimento emocional, uma reação muito comum é tentar fazer com que ela se sinta melhor imediatamente. Surgem conselhos, frases motivacionais, comparações e tentativas de mostrar que a situação possui solução. Embora normalmente partam de uma boa intenção, essas respostas nem sempre produzem acolhimento. Em alguns casos, podem gerar exatamente o efeito contrário: a pessoa passa a perceber que sua dor está sendo minimizada ou que precisa justificar por que está se sentindo daquela maneira.
O que é escuta ativa?
Escuta ativa propõe outra lógica. Ela envolve prestar atenção ao que está sendo comunicado, demonstrar interesse genuíno, fazer perguntas pertinentes e evitar julgamentos precipitados. Não significa permanecer completamente em silêncio, nem concordar com tudo o que a pessoa diz. Significa construir uma conversa em que ela consiga expressar sua experiência sem precisar disputar espaço com conselhos, comparações ou interpretações imediatas.
Perguntas abertas podem ajudar: “Quer me contar o que aconteceu?”, “Como você tem se sentido?”, “O que tem sido mais difícil ultimamente?” ou “Como posso ajudar neste momento?”. Mais importante do que escolher a pergunta perfeita é estar realmente disposto a escutar a resposta.
Por que minimizar pode afastar?
Frases como “você precisa pensar positivo”, “todo mundo passa por problemas”, “isso não é tão grave” ou “você tem que ser forte” podem parecer encorajadoras. No entanto, também podem transmitir a mensagem de que aquela emoção deveria desaparecer rapidamente ou de que a pessoa está reagindo de maneira inadequada.
Em saúde mental, acolher não significa confirmar que tudo é irremediável. Significa reconhecer que a experiência relatada possui impacto real para aquela pessoa. Depois disso, torna-se possível conversar sobre possibilidades de apoio.
Não tente assumir o lugar de um profissional
Outro aspecto importante da escuta responsável é reconhecer limites. Pessoas próximas podem ser fundamentais para perceber sinais, oferecer companhia e incentivar a busca por ajuda. Mas amizade, boa vontade ou experiência pessoal não substituem avaliação e acompanhamento profissional quando existe necessidade clínica.
A tentativa de assumir sozinho toda a responsabilidade pelo bem-estar de outra pessoa também pode gerar consequências para quem está oferecendo apoio. Uma rede saudável não concentra todo o cuidado em uma única pessoa. Ela conecta.
Como ajudar alguém a procurar suporte?
Dizer simplesmente “procure ajuda” pode não ser suficiente. Para alguém atravessando um período de sofrimento intenso, pesquisar serviços, entrar em contato, marcar atendimento e explicar novamente sua situação pode representar uma barreira significativa. Apoio prático pode incluir pesquisar possibilidades em conjunto, ajudar a organizar informações, acompanhar a pessoa até um serviço ou permanecer disponível durante esse processo.
No Brasil, a Rede de Atenção Psicossocial do SUS reúne diferentes serviços voltados ao cuidado em saúde mental. As Unidades Básicas de Saúde fazem parte dessa rede, e os Centros de Atenção Psicossocial são serviços públicos comunitários especializados, com equipes multiprofissionais e diferentes modalidades de atendimento. Também existe o Centro de Valorização da Vida, que oferece apoio emocional gratuito e confidencial pelo telefone 188. Conhecer esses recursos antes de uma situação de urgência é parte da prevenção.
A escuta também precisa existir nas organizações
No ambiente de trabalho, conversas sobre saúde emocional exigem preparação específica. Uma liderança não precisa se tornar terapeuta de sua equipe. Precisa compreender seu papel. Isso envolve saber reconhecer alterações relevantes, criar abertura para conversas, evitar julgamentos, conhecer fluxos internos de encaminhamento e acionar recursos adequados quando necessário.
Quando uma organização depende exclusivamente da sensibilidade individual de cada gestor, o acolhimento se torna inconsistente. Por isso, letramento e protocolos são importantes. Cultura de cuidado não nasce apenas de intenção. Ela precisa de conhecimento, responsabilidades definidas e caminhos concretos.
Escutar é parte da prevenção
Nem todas as pessoas conseguem explicar imediatamente o que estão vivendo. Algumas começam com uma frase breve. Outras demonstram mudanças antes de falar. Uma escuta disponível pode ser o primeiro espaço em que alguém consegue organizar aquilo que está sentindo e considerar a possibilidade de procurar ajuda.
Isso não significa que toda conversa evitará uma crise. Significa que a forma como respondemos ao sofrimento pode aproximar ou afastar alguém do cuidado.
Na Psyqué, acreditamos que pessoas e organizações podem aprender a fazer isso com mais preparo. Educação emocional, escuta qualificada, reconhecimento de sinais e direcionamento responsável são componentes de uma cultura preventiva.
E prevenção precisa existir antes de setembro, durante setembro e depois dele.



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